Diogo Schelp | Eleição nos EUA: próximo pesadelo de Bolsonaro

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Em política externa, o presidente Jair Bolsonaro apostou todas as suas fichas no alinhamento com o governo Donald Trump. Mas as chances de que ele continue no cargo a partir do próximo ano minguam a cada dia.

Apesar de existir uma ala do governo brasileiro que defende uma postura mais pragmática, voltada para interesses comerciais, nas relações exteriores (é o caso, por exemplo, da ministra da Agricultura, Tereza Cristina), prevalece a vontade da ala ideológica, formada por discípulos do astrólogo Olavo de Carvalho, como o chanceler Ernesto Araújo, o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o assessor especial da presidência Filipe Martins, o Marco Aurélio Garcia do bolsonarismo.

O principal pilar da política externa bolsonarista, porém, pode desmoronar em novembro deste ano, quando ocorre a eleição presidencial nos Estados Unidos.

O republicano Trump, mesmo sendo um presidente impopular, tinha tudo para dar largada na campanha com vantagem porque, historicamente, os americanos tendem a reeleger seus presidentes quando a economia vai bem e porque o adversário, o democrata Joe Biden, está longe de ser um candidato que empolga a oposição.

Mas as pesquisas de intenção de voto divulgadas esta semana mostram que a pandemia e a onda de protestos raciais representaram um duro golpe nas chances de Trump se reeleger.

A pandemia quebrou a espinha dorsal do emprego recorde que o país vinha registrando e colocou à prova a (péssima) capacidade de Trump de liderar o país em tempos de crise. A taxa de desemprego saltou de menos de 4% em fevereiro para cerca de 14% em maio.

Já os protestos contra violência racial e a maneira como Trump reagiu a eles ampliou o descontentamento do eleitorado não branco com o presidente.

A pesquisa do jornal New York Times divulgada nesta quarta-feira (24) mostra Biden com 50% das intenções de voto contra 36% de Trump — uma impressionante diferença de 14 pontos percentuais.

E não adianta dizer que as pesquisas não podem ser levadas em conta porque erraram a previsão em 2016, quando Trump venceu as eleições contra a democrata Hillary Clinton. Naquela ocasião, os institutos acertaram que Hillary teria mais votos que Trump. Ocorre que, nos Estados Unidos, a eleição é indireta e, mais importante do que conseguir a maioria dos votos é vencer no Colegio Eleitoral, cujos delegados são definidos de acordo com o desempenho dos candidatos em cada estado.

Em 2016, Hillary perdeu em estados cruciais, que haviam ajudado a eleger o também democrata Barack Obama em 2012. Foi a virada nesses estados que deu a vitória a Trump.

Agora, é diferente. Biden está liderando as pesquisas não só em nível nacional, mas também nos estados que definiram a vitória de Trump em 2016. Em Michigan, Biden está 8 pontos percentuais à frente de Trump, segundo um média de pesquisas feita pelo site RealClearPolitics. Na Pensilvânia, a vantagem do democrata é de 5,9%. No Wisconsin, Biden está 7 pontos percentuais à frente. Na Florida, sua liderança é de 6,2%. Em 2016, Trump venceu nesses estados por uma margem inferior a 2%.

Se as eleições ocorressem hoje, portanto, Trump perderia a reeleição. Muita coisa ainda pode mudar nos próximos cinco meses. Mas os estrategistas do governo Bolsonaro já deveriam ir pensando no que fazer caso percam o seu “norte” na política externa.

Que líder mundial eles vão passar a usar como referência para fazer seus juízos diplomáticos? Ou se verão obrigados a desenvolver, finalmente, uma política externa independente, mais pragmática, para salvar o Brasil do isolamento internacional?

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